As pequenas mentiras que contamos para as crianças


As pequenas mentiras que contamos para as crianças (e porque deveríamos parar com isso agora!)

Você já reparou que é muito fácil mentir para as crianças? Se não prestarmos atenção, vira algo quase rotineiro. Quem nunca disse frases como:

- Na volta a gente compra.
- Não vai doer.
- Não foi nada.

Eu já. E ainda digo, às vezes, quase sem perceber. Confesso. Tudo isso quando, na volta, não pretendemos passar pelo mesmo lugar e nem comprar nada. Quando sabemos que aquela picadinha da vacina vai doer, sim. Não vai matar e logo passa, é claro. Mas vai doer. Quando sabemos que, quando a criança cai e rala o joelho ou bate a cabeça, aconteceu, sim, alguma coisa. A criança caiu e se machucou. De leve, mas se machucou.

É claro que não dá para fazer tudo o que a criança pede e, na hora, mentir só um pouquinho para fazê-la esquecer é uma solução fácil, mas nunca me sinto muito confortável com isso. Fico pensando em como eu não gostaria de ser enganada. Então, como é que faço isso assim, sem mais, nem menos, com a pessoa mais importante da minha vida?

Fico me perguntando se, com isso, não começamos a ensinar nossos filhos a mentir. Ou, então, invalidamos algo que aconteceu com eles, como se estivéssemos menosprezando algo que eles dizem que aconteceu ou pelo qual estão sofrendo. Imagino que ao dizermos a uma criança que aquele machucadinho no joelho não foi nada, estamos tomando aquilo como algo insignificante. Para o seu filho, está doendo, sim. Aconteceu algo. Ou ele está maluco?

Encontrar o equilíbrio não é fácil. Também não podemos fazer daquilo um acontecimento. Até porque quem convive com crianças sabe que o drama dos pais diante de uma queda ou de um machucado pode aumentar o susto, o choro e o sofrimento dos filhos, mais do que o próprio machucado em si. O que eu questiono é a necessidade de mentir.

Sei que na correria do dia a dia, é quase impossível explicar tudo, mas algumas palavrinhas simples podem ser acrescentadas a esse nosso discurso pronto e fazer com que eles não sejam mais classificados como mentirinhas.

E se você explicar, por exemplo, que a vacina vai doer um pouquinho, sim, mas que é rápido e antes do que ela imagina a dor vai passar e que você vai estar ali, segurando a mão dela o tempo todo? E se quando seu filho se machucar você disser algo como: "Está doendo, não é? Vamos cuidar disso e vai passar".

Promessas que parecem simples, mas que você não vai cumprir, também me deixam incomodada. "Se você for comigo para casa, vou te dar um chocolate, quando chegarmos lá"; "Olha, lá no consultório do médico, vai ser divertido. Sabe quem vai estar lá? Aquele personagem do desenho que você mais gosta". Penso que, aos poucos, essas mentirinhas, que não são ditas por mal e que têm as melhores intenções, podem interferir na relação de confiança que criamos com nossos filhos. Aos poucos, as crianças crescem e concluem: "Poxa, meu pai ou minha mãe fala coisas que, no final, nunca acontecem. Por que devo acreditar, então?". Às vezes menosprezamos o que acontece na infância, especialmente nos primeiros anos de vida, mas não sei não... Será que tudo isso não vai ficando armazenado ali, em algum cantinho do cérebro?

De vez em quando, eu me pego contando alguma mentirinha dessas, mas tento me policiar. Se eu tenho uma relação de amor com uma pessoa, tenha ela 2 meses, 2 anos, 58 ou 103, quero que ela seja construída na base da confiança. Então, acho que vale o esforço para dizer a verdade, mesmo que com jeitinho.

Fonte: Revista Crescer